Retorna (dos)

26-07-2014 22:51

 

A fiada era infindável e desassossegada. Milhares de homens, mulheres, crianças, jovens e velhos desesperavam pela “ponte aérea” que os transportaria para uma metrópole longínqua, completamente ignota para a maioria.

Absorvida pela multidão, uma mãe zelava pelas duas filhas. A mais nova, bebé de colo, dormitava nos braços exauridos da progenitora, enquanto a mais velha deambulava por ali, sem nunca se afastar muito, olhando as pessoas. Ela não entendia o que se passava. Via gente, malas, embrulhos, lágrimas de despedida, revolta, saudade. Olhava em volta, à procura do pai. Que faziam ali? Onde estaria ele? Porque não veio?

As duas noites passadas num hotel adjacente ao aeroporto foram um pesadelo para aquela mãe. Temia estar só com as crianças, que o barulho dos disparos longínquos se fizesse próximo, que as meninas se apartassem dela. Dois dias e meio depois, as três conseguiram despachar bagagem e ter finalmente lugar no voo almejado. No frémito de embarque, com as pessoas a correr para se assegurarem de que era mesmo aquele o avião que as transportaria para outra vida, a menina mais velha largou a mão da mãe e correu para o homem de óculos à sua frente. Quando a diligente assistente de bordo, apelidada de hospedeira naquele ano de 1974, trouxe a menina à mãe exausta, a senhora respirou de alívio e explicou à filha que havia muitos senhores com óculos pretos como o pai.

E enquanto o avião descolava, a menina coloria um desenho, a bebé dormia e a mãe imaginava como seria o resto da sua vida fora daquele que havia sido o seu país durante os últimos anos, num retorno ao país que a vira nascer.