Noite...

17-07-2014 22:44

Quinta feira, dia 3 de julho de 2014 (noite)

Ao decidir passar férias neste spa, ela nunca pensou que as noites poderiam ter tanto salero. Então o local não era de repouso, paz, odores frutados e média luz?

É quinta feira, estará lua cheia? Verifica e não vê a lua… Caramba, mais uma promessa incumprida neste local de luxo, onde prometiam vistas límpidas para o céu estrelado. Não sendo noite de lobisomens e estranhos seres afins, algo deve explicar a sucessão de fenómenos a que aqui assiste.

Vários clientes bradam impropérios contra as desveladas funcionárias de bata branca. Alguns, de tão agitados, são seguros às camas para acalmar ímpetos de sair… está certo, isto talvez seja zen de mais, e queiram a agitação de outros locais…

Enquanto isso ali ao lado, a “room mate” está também em modo “anti-namastê”. Levanta-se da cama, deambula, encosta-se ao armário e adormece com a cabeça dentro da gaveta. Ela chama a senhora da bata branca, ou a da azul, alguém que possa mitigar este comportamento noctâmbulo. A senhora é aquietada na cama, mas assim que as funcionárias saem, luta pela liberdade, diz impropérios, o seu corpo franzino a borbulhar de uma vida que não possui. A mutação de doçura em tenacidade.

- Ó mãe, Isabel, Fátima, venham aqui, venham ver o que os meus irmãos fizeram à roupa da cama!

 - Quantos anos tem a senhora?

- Cinco. Pare lá de perguntar e solte-me, tenho que ir, tenho que ir fazer o meu comer.

E na continuação desta verborreia desconexa, levam-na para outros aposentos, quiçá mais apaziguadores. Ao longe ela ouve os gritos de clemência da anciã, a pedir ao padeiro que a socorra…

Ela fica sozinha no aposento. Talvez hoje tenha a tal apalavrada noite zen!