Mundo...

14-11-2015 23:29

    Há 42 anos ela veio para Portugal. Para ser mais exata fez 40 anos em Junho, saiu de Luanda no dia em que fez dois anos. Pais portugueses, nascida num território português, ela e a família sofreram o mesmo que muitas outras pessoas, milhares de pessoas sofreram na altura: o desenraizamento do que lhes era conhecido, a indiferença de uns, o medo de outros por ver os “retornados” a estabelecer-se por cá, a “roubar” empregos, a trazer insegurança. Claro que isto não era regra geral, nem todos pensavam assim e talvez o receio até se possa compreender, à luz da época, da lonjura de África, de tudo!

    Há 22 anos atrás foi pela primeira vez, e única até ao momento, a Paris com a P. Visitou a cidade, percorreu os Champs Elysées onde um simples café custava uma pequena fortuna, subiu de noite à Torre Eiffel, viu pessoas de todas as cores e feitios e nunca se sentiu insegura, com medo de por lá andar. É uma cidade deslumbrante, quente naquele agosto em que a visitou, onde conseguimos imaginar amores de filmes, paixões à primeira vista, gente feliz para sempre.

    E hoje o mundo está assim, como o vemos na TV, como o sentimos mesmo aqui, ao nosso lado. Há gente inocente a querer fugir de uma guerra hedionda e ignóbil, a querer criar os filhos, a querer apenas ter uma vida. Misturados com estes há aqueles que são programados para o fanatismo, a quem é sugada a vontade própria, aquém são injetados sentimentos de vingança contra um diabo inexistente, que são desprovidos de amor pelo próximo, que deixam a humanidade com que nasceram ser obliterada pela vontade de outros homens que dizem representar um ser superior.

    E estamos todos dilacerados pela dor do que aconteceu naquela capital europeia, cidade da luz que fica aqui ao lado. E muitos sofrem com o drama dos refugiados, famílias inteiras, bebés e crianças que nada fizeram ainda para serem manchados de culpa. Ao mesmo tempo dói ver as imagens dos refugiados e dá-nos raiva ver o que o fanatismo pode fazer nas nossas cidades, aos nossos irmãos.

    O medo de receber “gente nova”, falando ou não a mesmo língua, oriundos de países mais ou menos irmãos, é legítimo. A dor de os ver sofrer, de querer fazer algo para os ajudar, também! E no meio de tudo isto os assassinos que aguardam nas sombras tiram-nos a paz de espírito, disseminam o medo, instigam todos os instintos vis que connosco vivem. É difícil gerir tudo isto! Ela só deseja que mantenhamos algum discernimento, que não se exclua quem sofre, ao mesmo tempo que não se abram portas a quem não tem coração… Que mantenhamos a esperança!