Memórias do SPA

17-07-2014 22:50

Segunda feira, 7 de julho 2014

Ela saiu do SPA, isso já todos sabemos. Curiosamente o SPA, aquilo que lá viveu e viu viver, ainda não saiu dela, não sairá.

De madrugada, às três horas e cinquenta minutos de uma noites em que lá estava, tal como já relatou, deu entrada um cliente “nova” naquele espaço. Havia sido tratada cirurgicamente a um braço que deixou de funcionar devidamente. Três semanas de tratamento, regresso a casa, asma crónica, dor, agora numa perna, e regresso ao ponto de partida. Ao todo um mês nestas andanças. A ela, o que mais a impressionou, além da parafernália de máquinas a que a senhora estava ligada, máscara de oxigénio e outros mecanismos, foi a visitas das filhas.

Chegaram apressadas, entrando por ali dentro como se de uma suite privativa da mãe se tratasse. Carregadas de fruta, uma santinha num barco de madeira, em modo portátil para colocar na cabeceira, pijamas, camisas de noite e intimidades para a senhora e barulho. Sim, transportavam barulho, não calma, não o espírito zen necessário a quem ali está. Atropelavam-se nas palavras, questões, inquirições, recomendações e contradições. Uma apoderou-se de um pequeno copo de plástico com creme hidratante, ali deixado pelos funcionários do SPA, para a senhora colocar no corpo. Enérgica e diligentemente esfregava as pernas e braços da senhora, como se a sua cura dependesse disso. Ia dizendo:

- E estás aqui de novo, só dás trabalho.

- Está calada, não digas isso à mãe! Mãe agora é sem stress, sem stress!”- retorquia a outra irmã, que nunca largou o telemóvel.

- Estou a brincar, sabes bem é para a mãe se sentir melhor, e além disso, sou a única que tem a coragem para falar tudo.” – voltava a primeira.

- Tu és sempre a mesma, cala-te. Mãe vais respirar como a médica te ensinou e sem stress, ouviste sem stress… - inovava a segunda irmã.

Para completar o quadro, entra esbaforida uma mulher nova, despachada. A Dra. da senhora. Foi vê-la porque “agora já não confio em ninguém, venho ver com os meus próprios olhos, saber de estão a fazer o que devem”! E afadigava-se em beijinhos a todos, olhadelas e “mexidelas” nas máquinas várias que por ali proliferavam, em colocar questões assertivas, daquelas que temoas a certeza de que conhecemos a resposta, aos espantados funcionários do SPA, apresentando-se como Dra. Fulana de Tal.

Ela, como já podia mover-se e sair do leito, foi arejar… Aquilo era denso. A colega da cama do meio, não se podendo mover, olhou para ela e trocaram um olhar cúmplice de impotência perante tanta exuberância daquela gente. Viva a doença para unir famílias e fazer com que todos envidem esforços para o “cliente” melhorar. Quando regressou do passeio, já haviam deixado a pobre senhora asmática e entubada sossegada. O “stress” terminara…