Jack...

17-07-2014 22:47

Sexta feira, 4 de julho de 2014 (noite)

Ela adora películas, e já viu diversas vezes o Shining, onde um Jack Nicholson, possuído pela demência de escritor sem palavras, se digladia com o seu alter ego.

Hoje, feriado aqui na cidade onde fica o SPA, este enorme casarão evoca o hotel do filme… não há gémeas loiras e de cara inocente, rodeadas por torrentes de tinta vermelha camuflada de sangue, nem um menino que percorre corredores de triciclo, nem mesmo uma esposa que dorme de machado por perto. Há gente que dorme, quiçá afadigados dos tratamentos, gente que passa o dia em semi inconsciência, talvez pelos odores que pululam neste local, outros que, outros que e outros que (…)

Ela cá está, estirada numa cama azul e branca, a matar o tempo que não escorre no espaço da ampulheta temporal. Talvez esteja encravada a passagem dos minutos.

Hoje já deu um passeio “restaurador” pelos jardins do centro de relaxamento. Certo! Confirmado que a vida continua lá fora, as pessoas estão na sua cadência, os carros andam e os autocarros trazem familiares dos utentes para as visitas animosas da tarde. Além disso, os clientes do SPA que se encontram na ala de quem tem enigmas respiratórios insistem em ir até à entrada “fumar o seu cigarrinho”. Nada como completar o tratamento com o que aqui as trouxe. Calma, ela nada tem contra fumantes, apenas está em cogitações de quem daqui não sai e nada vê em si que o provoque… Talvez se tenha enganado e reservado isto por mais tempo e não se tenha apercebido.

No marasmo do casarão, onde espera encontrar o assistente negro do hotel Overlook em alguma esquina, há o som explícito da transmissão do jogo da copa do mundo. Dois dos funcionários, varões, comentam, incitam jogadores e cumprem o seu papel de treinadores de bancada. Pelo menos há som por aqui, e não é de gritos. Esses hoje também parecem ter apartado para o fim de semana.