Destruíram-se!

22-10-2017 22:01

    Destruíram-se!

    Por séculos incontáveis viveram um amor prásino, ponteado do castanho outonal ou do brilhante ofusco da primavera. Elas, opulentas, eretas no verde da folhagem que sempre mantinham, altivas e orgulhosas, árvores. Ele loiro, refulgente no gemado dos braços envolventes, quente e apaixonado, sol.

    Por escarpas irregulares, acidentadas, recortadas pelo pez da humanidade, mantiveram o doce e delicado equilíbrio de uma relação amorosa difícil, ponteada de desejos esporádicos, viscerais, de outros elementos, água, ar, vento. Elas sorriam aos ciúmes do sol quando não podia ali se deslocar, fruto das variações de humor do tempo. Ele sofria ao deslocar-se para outros locais, sabendo-se longe delas, mas intimamente seguro de que os outros elementos apenas supriam necessidades básicas delas, das suas árvores e que o amor eterno, esse, seria sempre dele.

    Aos poucos, o medo dele, as inseguranças delas, necessidade de atenção, de se sentirem supremas e adoradas, abriu caminho aos perigos, à desorganização, ao despentear de folhagens e acumulação do que é dispensável. E ele, o medo, de ardente rubro vestido, infiltrou-se por ali, tímido primeiro, ostensivo, imponente em breve. O vento ofendido pelas negas de anos excedeu-se; a chuva, preterida face ao sol, desapareceu meses a fio; a ação dos ditos racionais humanos esfregou as mãos e conjugou-se com este cenário trágico.

    O fogo-medo bailou por ali à vontade, horas a fio, brincou com elas, provocou-as, consumiu a fúria encarcerada durante anos… Ele, lá de cima, via, brilhava de dor cada vez mais, num dia de insondável canícula de um outubro de estio. Não se cuidaram os amantes, sucumbiram aos outros, aos elementos externos, definharam na ilusão do desenvolvimento. Caos, desorganização infundada, fogo, negro…

    Destruíram-se!