Considerações em férias - II - Aiamonte!

02-09-2015 00:00

    Nos verões da sua meninice um dos pontos altos das deslocações a Faro, onde tinha, e tem ainda, família, era a viagem até Aiamonte.

    Ela, os pais e irmãs iam no pequeno e antigo carro (hoje os automóveis que o pai adquiria seriam todos apelidados de clássicos…), até Vila Real de Santo António. De lá apanhavam o barco para Espanha, que era mesmo já ali, do outro lado do Guadiana. Os carros podiam também entrar no barco e eram arrumadinhos impecavelmente ao lado uns dos outros. As pessoas espalhavam-se pelo barco, tentando encontrar um bom lugar para observar a travessia.

    Do outro lado do rio, cruzada relativamente curta mas que a ela parecia durar uma eternidade, estava Espanha. Aiamonte era no estrangeiro e, como tal, era uma emoção percorrer as suas ruas. A praça principal, pertinho da saída do cais de embarque, com os seus bancos de jardim forrados a azulejo azul e amarelo, estava rodeada de lojas de “recuerdos”, vitrinas repletas de “abanicos”, fatos de sevilhanas, castanholas… Num dos cantos da praça ficava o supermercado dos caramelos! Sacos gigantes de rebuçados e caramelos, de café, de leite, chocolates em tabletes compridas, uma festa doce de encher os olhos a petizes e graúdos. E tudo era mais barato, os copos, os atoalhados, o arroz em sacos de dois e mais quilos. Os portugueses juntavam uns contos e lá iam gastá-los com os “nuestros hermanos”. E sim, diziam os adultos que compensava a deslocação!

    A ela e às irmãs isso pouco dizia. A piada era a viagem de barco, os caramelos, os leques que os pais lhes ofereciam. Uma das imagens que retém é a de uma foto que ainda hoje está guardada em alguma gaveta da casa da mãe, onde ela e a irmã do meio, de vestido às flores e folhos, iguais como duas gémeas, posavam no barco com os leques abertos.

    Hoje ainda é tudo parecido. As compras já não compensarão tanto daquele lado da península, apesar de haver diferenças sim. No gasóleo é significativo. A cidade está idêntica, os locais da sua memória reconhecíveis, o mesmo supermercado de prateleiras repletas de doces. Há shoppings, o "Mercadona", locais de consumo modernos e desempoeirados. Já lá tinha estado com o filho, mas agora ele é maior e fixa mais o que vê. Passearam pelos locais que a mãe conhecia, compraram os caramelos e sim, um leque para a mãe! Ele gostou, ela recordou. Não foram de barco, a estrada é mesmo ali, em cinco minutos estão lá, e o depósito do carro, e a carteira dela, agradecem o diesel mais barato.

    Vivências atuais, que recordam momentos aprazíveis, conferindo um agradável aconchego. E pronto, foram ao estrangeiro, várias vezes nestas férias, e voltaram num instante!