Cancro!

27-01-2015 22:57

    Há 20 anos atrás, num janeiro quiçá tão frio e interminável como este, o pai dela estava já em fase terminal daquilo a que se convencionou chamar uma “doença prolongada”. Era um cancro. No cólon!

    Todos tememos a doença. Qualquer uma, mas um diagnóstico destes achana, aniquila, mata esperança, apesar de, felizmente, nem sempre se provar fatal, cada vez menos o é.

    E lá arranjamos subterfúgios para a dor, o principal dos quais é evitar dizer a palavra fatal: cancro. Como se isso mudasse a patologia, o desenrolar dos acontecimentos. É um eufemismo que, não nos confortando, faz com que o murro no estômago seja menos assertivo… pelo menos naquele momento em que é ouvido!

    O pai dela sobreviveu quatro anos ao cancro. No ano em que ela entrou para o mundo universitário foi operado pela primeira vez e morreu no último ano dela em Coimbra, em fevereiro, antes de a ver licenciada como ele sempre sonhara e se gabara, como qualquer progenitor faz em relação às suas crias, como ele o fazia em relação às três filhas que tinha, que tem!

    Como outros homens da sua geração, muitos, nunca lhes disse declaradamente que as amava, não tinha gestos de recorrente carinho. Mas elas sabiam, sabem, que ele as amava, que ele se orgulhava delas, que ele tinha sonhos e anseios para elas. Morreu sem as ver empregadas, sem conhecer os genros ou netos, et caetera. Morreu cedo demais, passou por sofrimento demais, debilitado demais.

    Ainda hoje, a dias de se completar a marca dos 20 anos desde a sua morte, já adulta e mais madura, ela pensa na crueza daquela morte, de qualquer morte, mas aquela foi numa pessoa sua, na casa que habitava, no seu pai. Morremos todos sim, é o fim anunciado assim que emitimos o primeiro choro ao nascer! Mas tem que ser assim? Com dor, pesar, perda do que fomos, sombra da vida que tivemos? Ela não vai afirmar o óbvio, o que todos pensamos: devia ser durante o sono, com tranquilidade! Isso é nos filmes. A realidade é, muitas vezes, mais dura, cruel e marcante… não devia ser assim… não é justo! É o que ela pensa, pelo menos, e não, não está triste, só a cogitar sobre isto, como o faz tantas e repetidas vezes!