A minha capela, ou o que dela permaneceu...

15-10-2018 17:41

    A festa do bairro, do meu bairro de meninice, de adolescência, onde cresci, foi este fim de semana.

    Há uns anos recordei esta festa, e escrevi sobre isso, porque voltei à capela do bairro num domingo de procissão.

    Este ano voltei, e tudo está diametralmente diferente. A capela onde comunguei pela primeira vez, situação revestida de muita pompa e circunstância nessa altura, onde confessava os meus pecados ainda praticamente inexistentes, onde cantava na missa com a alegria de quem reza, onde cochichava com as minhas irmãs e amigas, está hoje descaracterizada. O progresso construiu uma outra igreja ali perto e a esta capela foi retirado o altar e toda e qualquer manifestação de ter sido um local de culto. Cristo já não está lá por cima do altar, nem existe a caixinha onde se guardavam as hóstias, o sacrário. Hoje todo o espaço é amplo, com zona de restauração, que fica no que, para mim, era o salão onde o grupo de jovens fez peças de teatro e festas divertidas. Há uma cozinha completamente equipada com o necessário para alimentar festeiros. Onde antigamente havia bancos corridos de madeira para assistir à missa hoje há um bar e a pista para dar um pezinho de dança ao som das duplas e cantores que cantam no palco, o ex púlpito de onde o padre nos falava.

    Regressei lá para um jantar com a minha melhor infância e várias pessoas da sua família, com quem cresci, que sempre foram importantes. Revi caras que conhecia, das quais já os nomes me escapam. Há pouca gente nesta festa, não arrasta multidões, mas o fundamente está lá. Uma festa de bairro, num espaço diferente, renovado qb, onde, por cima da dupla de organistas, vislumbrei ainda a imagem de Cristo que acompanhou os sacramentos obrigatórios da minha vida na catequese.

    Tudo muda mesmo, até o uso de uma capela, mas os sentimentos de carinho pelos nossos espaços, esses, ainda que mutáveis, lá estão, latentes. Num fim de semana de tempestade, que se fez sentir bem por cá, eu nada de mais senti, estava lá, ouvi chuva e pouco mais... Que a festa se mantenha, bem haja a quem persiste nestas tradições, mesmo que a minha capela já não exista!