A capela do bairro.

12-07-2015 22:18

    O salão paroquial e a igreja do bairro onde cresceu vão ser “desativados”. Isto é, uma igreja nova foi erigida ali perto, num bairro mais povoado, templo grande, moderno, com o conforto necessário aos fiéis que ainda seguem as preces religiosas, que frequentam a missa e os rituais católicos. A capela do bairro, assim se chamou sempre aquela pequena igreja branca, raiada de azul, no meio de um casario colorido e ao lado da escola primária, já bem antiga, traz-lhe muitas recordações.

    Quando era miúda toda a gente frequentava a catequese… ou ela pelo menos não se lembra de ninguém que não o tivesse feito. Pura fé ou tradição, com a matrícula na escola primária, altura em que pela primeira vez tínhamos o “falecido” Bilhete de Identidade, era também feita a inscrição na catequese. Como ainda não sabíamos escrever a maior parte de nós teve no seu primeiro BI, no local da assinatura, um carimbo que em letra negra e trabalhada dizia: “Não sabe assinar”! Certo, ainda ninguém nos havia ensinado… Voltando à catequese, era assim que a maioria entrava, aos seis anos, na vida dos meninos maiores que já tinham horários e obrigações. Ela, as irmãs, as vizinhas e os amigos do bairro assim o fizeram também.

    Ao sábado ao final da tarde, se a memória não lhe falha a missa era às 19h, e ao domingo de manhã, o sino tocava meia hora antes da cerimónia a chamar os fiéis. A catequese era ao domingo. Ela e as outras crianças lá iam, de início porque era assim, todos iam, e, com o tempo, cada um cimentava, ou não, as suas crenças, continuando, ou não, aquele percurso religioso.

    A capela tinha bancos de madeira e cadeiras, para os adultos, e nas filas da frente, mesmo em frente ao altar, ficavam quatro ou cinco fileiras de bancos corridos e baixos para os meninos da catequese. Era uma altura divertida no fundo. Entre brincadeiras, toques, cochichos com os vizinhos, as fórmulas das orações daquela cerimónia iam sendo mecanicamente repetidas. Os catequistas iam ralhando com os mais irrequietos, olho atento a quem subvertida a atenção que devia manter no local. O altar era simples, toalha branca em crochet, espaço adornado com flores de cores várias. Na altura da festa do bairro, primeiro fim de semana de outubro, as paredes da capela eram adornadas com colchas acetinadas de cor roxa, umas, e azul celeste, outras. No resto do ano os pregos que sustentavam essas colchas eram visíveis aos olhos atentos das crianças, pelo menos aos dela que divagava em observações de tudo o que a rodeava.

    No final da missa (ou seria antes?... pormenores que já lhe falham), as crianças iam para a catequese, com os seus catecismos. Ao longo dos anos que ali andavam as amizades iam ficando cimentadas. Passavam muito tempo juntos, eram também colegas de escola e brincadeiras de rua, numa altura em que começavam a despontar as primeiras paixões, os primeiros olhares diferentes a um menino loiro de olhos claros, a uma menina de cabelos compridos, de cabelo castanho, et caetera, a altura de se verem de outras formas.

    Mais tarde foi construído o salão paroquial. Muitas festas ali organizaram, já como grupo de jovens, atividades de comunidade que galvanizavam esforços, que davam sentido de pertença. Ela recorda a construção daquelas salas do salão, o tempo em que a escada para o primeiro andar não tinha ainda corrimão, em que tudo ainda estava em cimento. Com os anos, e o acumular de dinheiros de festas e donativos, aquelas paredes foram pintadas, as salas foram sendo cheias de cadeiras e materiais para a catequese, o salão maior do rés do chão foi ganhando comodidade para os jantares que lá faziam. Ali cantaram, dançaram, aprenderam religião, se apaixonaram, deram as mãos ao/à  primeiro/a namorado/a, “roubaram” o primeiro beijo. Acima de tudo, por ali foram felizes, por ali cresceram.

    A capela está lá. Passa à sua frente várias vezes e o espaço permanece imutável. A porta da igreja tem os seus placards de cortiça repletos de anúncios diversos, as plantas de largas folhas verdes adornam a entrada, a estrutura da quermesse para a festa está no local habitual e o salão paroquial lá permanece. Agora tudo será “abandonado”. Claro que não inteiramente, o salão será usado em atividades de apoio à igreja, com certeza. E a capela, o espaço, ali ficará, monumento de um bairro, recordação doce para tantos, amarga para outros talvez. Hoje ela passou lá, ontem falou sobre esses tempos e agora escreveu sobre isso. Ainda bem que as memórias não são desativadas…